A história dos quilombos na região do Baixo Tocantins

Ilustração ao texto

A população negra na Amazônia estava distribuída na própria capital da província do Grão-Pará, nas áreas circunvizinhas a Belém e também em localidades mais afastadas. Nos preâmbulos do alvorecer da abolição, havia um grande número de negros escravizados e libertos que se concentravam, além da capital paraense, em paragens como Igarapé-Miri, Cametá, Moju, Mocajuba e Baião.

Segundo Vicente Sales, a lavoura canavieira ocupou uma área bastante extensa na região, estendendo-se ao redor do “Círculo do Golfo Marajoara”, ocupando inclusive certa área da Ilha de Marajó e subindo a calha do rio Tocantins. Em Cametá, por exemplo, em 1752, a vila e os sítios próximos somavam 129 propriedades agrícolas, cujo pessoal trabalhava especialmente nas lavouras canavieira e cacaueira, além de roçados de espécies alimentícias (Op. cit., p. 123). No entanto, as constantes fugas e o aquilombamento causavam um grande mal-estar para os fazendeiros, proprietários de escravos de modo geral e autoridades legais da Província do Grão-Pará e vizinhanças. Preocupadas com tal situação, as autoridades tornavam-na pública: quase que diariamente havia notícias de negros fugidos e de seus quilombos.

Na província do Grão-Pará, de acordo com Vicente Sales, a fuga de negros escravizados tornou-se um processo rotineiro e, até certo ponto, incontrolável, ganhando ainda maior força com a propaganda da independência, que acabou exercendo grande atração dos negros pela liberdade. Nas fugas, mesmo perseguidos pela força militar — cujo emprego principal se tornou a caça de fugitivos —, estes tomavam rumo em diversas direções. No itinerário das fugas, a região do Baixo Tocantins despertava certa sedução, pois lá, principalmente na localidade de Cametá, ventilava-se alguma movimentação contra o regime da época. Tais tensões se arrastaram após a adesão do Pará à independência, mesclando-se com os ideais do movimento cabano.

Em estudos da historiografia paraense, têm-se encontrado indícios da formação de vários quilombos no Baixo Tocantins. Alguns foram destruídos, enquanto outros jamais foram descobertos. Os quilombolas, quando ameaçados pela reescravidão e pela busca por sobrevivência, adentravam matas, rios e igarapés. No interior da floresta, reproduziam novos mocambos, como ocorreu no Distrito de Juaba (Cametá), em Mocajuba e em Baião. No distrito de Juaba, às margens do igarapé Itapocu, formou-se, na segunda metade do século XVIII, o quilombo do Mola (ou Itapocu), um dos mais importantes focos de resistência negra da região. Mais de trezentos negros, sob a liderança da negra Felipa Maria Aranha e, posteriormente, de sua sucessora Maria Luíza Piriá, viveram ali por vários anos sem serem incomodados pelas forças da província. No município de Mocajuba, formaram-se os quilombos de Icatu e Puriti, e no município de Baião, os negros libertos e fugidos se uniram na formação do quilombo do Paxibal.

Fatores como defesa e crescimento populacional acabaram ocasionando a formação de novos redutos quilombolas. Tanto o quilombo do Mola (ou Itapocu) quanto os de Icatu e Paxibal serviram como referência para o surgimento de outros miniquilombos na região tocantina. Com o aumento progressivo de migrantes nessas comunidades, a produção interna de alimentos tornou-se insuficiente para suprir as necessidades de seus habitantes. Assim, sua precária autonomia era assegurada pelo extrativismo vegetal, pela caça, pela pesca e pela agricultura de subsistência, com o cultivo de mandioca, arroz e milho. A ameaça da reescravidão era outro fator de dispersão dos aquilombados, que viviam constantemente sobressaltados pelo medo de que as autoridades da província os perseguissem e, consequentemente, destruíssem seus redutos.

Desse modo, deixavam os laços de amizade e parentesco constituídos no seu reduto anterior e saíam mata adentro, procurando outro pouso capaz de corresponder às suas necessidades. Na luta pela liberdade e pela sobrevivência, os negros iam construindo outros redutos, novos miniquilombos, como foi o caso de Porto Alegre, Boa Esperança, Laguinho e Tomásia, no distrito de Juaba. Todos constituem, hoje em dia, comunidades negras em processo de desagregação. Mas as memórias sobre os quilombos da região, ainda que fragmentadas, permanecem na história viva dos velhos habitantes desses povoados.

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