É proibido ler

Ilustração ao texto.

Em 1439, Gutenberg acendeu a primeira faísca de uma revolução silenciosa: tomou o conhecimento das mãos de poucos e o espalhou pelo mundo, colocando a humanidade à beira do abismo — ou da ascensão.

Hoje, séculos depois, temos tudo à disposição, mas escolhemos quase nada. Qual desculpa sobrevive quando o passado foi fome e o presente é fartura?

Pouco antes do fim da Idade Média, Gutenberg, o precursor dos portais modernos, chocou o mundo. Se a prensa foi ponte para novas rotas e saberes, a inteligência artificial é portal multidimensional — personalizada, veloz, capaz de abrir mil caminhos para quem sabe pedir, conjurar, escrever o prompt certo. Sua máquina mudou o destino do saber.

Na Europa sem redes sociais, internet ou IA, só os abastados tocavam os livros, copiados à mão por profissionais raros e caros — verdadeiros craques do saber, disputados como astros do futebol de hoje. Um único exemplar podia tomar décadas de trabalho.

Imagine-se nesse mundo: peste assolando cidades, saneamento precário, reformas religiosas borbulhando, nenhum europeu ainda pisara nas Américas. O ‘Velho Continente’ era terra de ignorância e medo — até que surgiram os primeiros panfletos, depois as páginas, até chegar ao primeiro livro completo: a Bíblia de Gutenberg, em latim, apenas 48 exemplares sobreviventes, hoje avaliados em centenas de milhões de dólares.

Saltamos séculos e, depois de toda a luta para tornar o acesso à leitura cada vez mais amplo, vivemos na era da facilidade absoluta. Obras imortais a um clique, conhecimento se renovando a cada segundo, IAs escancarando ainda mais as portas do saber.

Mesmo assim, preferimos futebol, reality shows e a vida alheia nas redes — qualquer distração serve para adiar o encontro com a própria mente.

Em uma geração de muitos acessos e poucas responsabilidades, pagamos o preço altíssimo do analfabetismo funcional. Milhões só sabem rabiscar o nome, incapazes de escrever vinte linhas com clareza ou pensar além do óbvio. São vítimas do próprio descaso — se proíbem de ler, priorizando tudo, menos a si mesmos.

Dê as desculpas que quiser. Mas o que diriam nossos ancestrais — aqueles que jamais tiveram acesso à leitura, à internet, ao conteúdo gratuito, a uma IA para consulta — ao ver alguém ignorando até leituras simples como a bula de um remédio, o anuário do Remo, Corinthians ou Paysandu?

Pagamos caro: conversas rasas, gente rasa, rodando em círculos, a vida inteira correndo atrás do próprio rabo e, talvez, jamais conquistando a liberdade de pensar. Quem tem preguiça de ler será sempre papagaio das ideias alheias — reprodutor, não criador.

Decida por você. Comece pelo livro mais simples. Um por vez, sempre.

Adquira repertório, vocabulário, experiência — porque, no fim das contas,

"Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma." — George R.R. Martin.

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Charles Azarias

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