1894 ou o "noivo rejeitado"

Ilustração ao texto

Um pai, que amava incondicionalmente uma filha, acabou por criar um terrível e inesperado conflito com a filha amada. Ocorre que ela amava um rapaz com o qual desejava contrair matrimônio. Tratava-se de um excelente rapaz, já graduado, íntegro, trabalhador e muito gentil com todos. Um verdadeiro achado, que certamente faria a jovem filha muito feliz.

Mas o pai "bateu" o pé, esbravejou e não havia jeito nem maneira de aceitar o rapaz como genro. Essa atitude inesperada e, para muitos, injusta, era um verdadeiro enigma. "Mas como? Um rapaz tão bom, um bom partido, e o homem não aceita"?

E aí todo mundo "vestiu" a capa e o chapéu e "fumou" o famoso cachimbo de um Sherlock Holmes tupiniquim para investigar e tentar descobrir os motivos daquele pai amoroso em teimar e em não aceitar um rapaz tão bom para casar com sua filha.

E o mistério, finalmente, foi desvendado. Motivo? O avô do rapaz, há anos, havia votado em um candidato a prefeito do lugar, que era odiado, justamente, pelo pai da jovem, e era isso que o fazia não aceitar o tal casamento.

Parece, mas não é coisa de história de interior. Em pleno século XXI, o país vive algo similar, quando um conceituado e probo jurista, ainda jovem, não é aceito como "noivo" do Supremo Tribunal Federal (STF) apenas porque o "papai" Senado da República não "vai" com a cara do "vovô" Presidente da República sabe-se lá por qual motivo.

A rejeição de Jorge Messias, Advogado-Geral da União (AGU) do Governo Lula, cargo que ocupa desde 1° de janeiro de 2023, constuiu-se em um fato histórico, porque envolve e mexe com estruturas e relações profundas do país, fato que não ocorria desde fins do século XIX, mais precisamente no ano de 1894. Além de chefe da AGU, Messias é Procurador da Fazenda Nacional de carreira e uma das personalidades jurídicas de maior confiança do Presidente da República, daí a indicação de Lula para ocupar uma cadeira no Supremo.

Figura muito respeitada na cena jurídica do pais pela competência, experiência comprovada e reputação condizente com a natureza do cargo e da indicação, com invejável histórico curricular, apesar de ainda jovem, Jorge Messias foi, injusta e literalmente, expurgado por 42 votos "secretos", mas que o presidente da Mesa Diretora já conhecia o resultado, pois "cochichou" no ouvido de um senador que estava próximo a si.

E o que o Governo do Presidente Lula fez para merecer tamanho golpe desferidos pelas costas por esses tantos senadores ao rejeitar um nome constitucionalmente indicado por um Presente da República, eleito democraticamente, como prerrogativa sua, para o Supremo Tribunal, um nome que, por suas características e histórico jurídico e profissional, deveria passar com facilidade? E o que representa a efusiva e teatral comemoração daqueles senadores, após a "vitória", como se estivessem a comemorar um gol do Brasil contra a Argentina em uma final de Copa do Mundo?

O Presidente Lula, sem favor algum de seguidores ou de adversários, construiu, ao longo de sua história, uma sólida e densa reputação como líder e como estadista, não só por aqui, mas em todo o mundo, sendo recebido com respeito e com admiração por importantes chefes de Estado mundo afora.

E como fica essa imagem consolidada, quando esse mesmo mundo descobre que esse Presidente teve um nome seu, de sua confiança, indicado para o STF e, sumariamente, por maioria de votos do Senado, rejeitado, de forma abrupta e vergonhosa, fenômeno político que não acontecia há mais de um século?

E o caráter institucional, o respeito e a harmonia entre os poderes da Nação acabam por ficar à mercê de um "pai" da noiva que não aceita um "noivo" por raiva do "avô" deste, e também porque pode ficar sem o poder absoluto, por força e resistência da "noiva" e do "noivo", mas o quer se volta a qualquer custo, mesmo que isso abra as fronteiras de uma guerra "familiar" e institucional, esta não experimentada há mais de cem anos?

O Senado pode ter tido uma "Vitória de Pirro", aquela em que a vitória - conseguida a um custo tão elevado - possa significar, na verdade, uma derrota futura.

E nas redes sociais é evidente essa percepção, ou seja, a de que o s 42 senadores legislaram em causa própria no sentido de enfraquecer o Governo, inclusive a partir de veementes falas de renomados juristas e de ex-ministros do próprio STF, unânimes em cunhar como um "desrespeito institucional", uma afronta direta à Presidência da República e ao Regime Presidencialista.

Enfim, o "noivo", competente e probo, vencerá as resistências do rancoroso e indigesto pai?

E a "noiva", vestida de POVO para o casamento ameaçado, como fica?

Lembrando uma passagem de um romance de Machado de Assis, a qual dizia: "Ai vencedor, as batatas"!

Mas, em relação a essa votação do Senado Federal, as batatas parecem que estão "quentes".

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