Sobre a história da Ilha do Cotijuba

Ruinas em Cotijuba

Quem desembarca no trapiche da Ilha de Cotijuba, em Belém do Pará, dá de cara com uma estrutura imponente, melancólica e completamente tomada pela vegetação. As ruínas do antigo presídio (originalmente o Educandário Nogueira de Farias) carregam as marcas de um passado sombrio. Elas alimentam o imaginário paraense com histórias de opressão, sofrimento e assombrações.

Desativado em 1977, o prédio foi abandonado ao tempo, mas as energias e memórias daquele espaço continuam vivas nos relatos dos moradores locais e visitantes.

Muitas narrativas locais giram em torno de detentos que, movidos pelo desespero dos castigos físicos, tentavam fugir a nado ou em pequenas canoas pelas águas traiçoeiras e agitadas que separam a ilha do continente. Poucos sobreviviam, gerando lendas sobre corpos nunca encontrados.

Moradores antigos e pescadores evitam a área durante a noite. Há relatos persistentes de lamentos ecoando entre as paredes sem teto e vultos caminhando onde antes ficavam as celas de isolamento.

Hoje, caminhar por entre as imensas paredes de Cotijuba é um convite para o turismo de memória. Onde antes havia dor, agora a natureza retoma seu espaço com árvores que brotam de dentro das celas, deixando no ar o eterno mistério de tudo o que aquelas pedras calaram.

A história da Ilha de Cotijuba e de seu antigo presídio revela como um território originalmente indígena se transformou em um símbolo de repressão estatal e, posteriormente, em um polo ecoturístico preservado. Localizada a cerca de 22 quilômetros de Belém, na Baía do Marajó, Cotijuba é hoje uma das principais Áreas de Proteção Ambiental (APA) da capital paraense.

Os primeiros habitantes da região foram os indígenas da etnia Tupinambá. Foram eles que batizaram o território de Cotijuba, termo originado do tupi-guarani que significa "caminho dourado" ou "trilha dourada". Essa denominação faz alusão visual às falésias argilosas e amareladas presentes na costa da ilha, que refletem a luz solar e o luar.

Durante o período colonial, em 1784, a ilha começou a ser integrada economicamente a Belém por meio da produção de arroz no Engenho Fazendinha. Após a desativação do engenho, o local passou a abrigar comunidades caboclas ribeirinhas voltadas ao extrativismo.

A ocupação institucional e moderna da ilha começou de forma idealista. Em 1933, foi fundado o Educandário Nogueira de Farias, idealizado inicialmente como uma colônia agrícola reformatória e escola de reeducação para menores infratores e jovens em situação de vulnerabilidade. O projeto nasceu sob a égide da "Ilha da Redenção", um conceito que visava reabilitar indivíduos por meio do trabalho na terra e do isolamento geográfico benéfico da floresta.

Com o passar das décadas, a colônia reformatória desvirtuou-se. O isolamento, que antes era visto como ferramenta de cura, tornou-se ideal para a custódia punitiva.

Em 1968, o governo estadual converteu oficialmente a estrutura na primeira penitenciária de segurança máxima do Pará. O educandário foi extinto, dando lugar a um complexo que abrigava tanto detentos comuns da região metropolitana quanto presos políticos que faziam oposição ao regime civil-militar da época.

Cotijuba passou a ser temida e ganhou alcunhas pesadas no imaginário popular paraense, como "A Alcatraz de Belém" ou "A Ilha do Diabo". O período foi marcado por denúncias de torturas violentas, arbitrariedades e execuções. Relatos locais apontavam que a travessia de barco funcionava muitas vezes como "cemitério", onde prisioneiros rebeldes eram jogados ao fundo da baía com pedras amarradas ao corpo.

O desespero dos internos gerava tentativas de fuga perigosas pelas correntes fortes da Baía do Marajó, nas quais muitos detentos se afogavam tentando nadar ou usando pequenas canoas improvisadas para alcançar o continente.

O presídio funcionou até 1977, ano em que foi definitivamente desativado após a inauguração da Penitenciária de Americano, em Santa Isabel do Pará. Os detentos sobreviventes foram transferidos e as instalações físicas foram abandonadas à ação do tempo.

O estigma de ilha-presídio manteve a sociedade afastada de Cotijuba por muito tempo. Contudo, a história do local começou a mudar com a promulgação da Constituição de 1988, que transferiu o território para o controle do município de Belém.

Em 1990, uma lei municipal transformou a Ilha de Cotijuba em uma Área de Proteção Ambiental (APA). A legislação impôs regras rígidas para conter o impacto ambiental, incluindo a proibição da circulação de veículos motorizados particulares (o transporte local é feito essencialmente por bicicletas, charretes e os chamados "motorretes").

Atualmente, quem desembarca no trapiche da ilha depara-se imediatamente com as imponentes ruínas coloniais do antigo presídio, hoje tomadas pela vegetação amazônica. Esse patrimônio histórico funciona como um memorial visual e atrativo turístico. Além do turismo histórico, Cotijuba atrai milhares de visitantes devido aos seus 20 quilômetros de praias de água doce e morna (como a Praia do Vai-Quem-Quer, Praia do Farol e Praia do Amor) e pela forte cultura de sua comunidade ribeirinha tradicional.

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