A lata de cerveja assassina

Não há dúvidas de que esse título do artigo assustaria, e muito, os amigos do sábado de lazer, em um bar amigo, tomando umas “geladas”, daquelas tipo “canela de pedreiro”, “véu de noiva”, por não entenderem como uma simples e inocente “lata de cerveja” poderia “assassinar alguém.”
Já é possível perceber, leitor atento e antenado, que se trata de uma imagem metafórica, figurada, pois uma latinha de cerveja, apesar do que falam por aí as más línguas, não merece ter uma fama tão devastadora como essa de ser uma “assassina”.
O escritor, dramaturgo e roteirista Marcelo Rubens Paiva, autor do livro Ainda estou aqui, filho do engenheiro civil e deputado federal Rubens Paiva, perseguido por suas posições políticas, sequestrado e morto pelo regime militar, que se instalou no Brasil de 1964 a 1985, participava de um desfile carnavalesco do Bloco de Rua Acadêmicos do Baixou Augusta, em São Paulo, usando uma máscara da atriz Fernanda Torres, protagonista do filme homônimo, uma semana antes da premiação do Oscar, prêmio maior da Arte Cinematográfica Mundial, quando foi brutalmente agredido por um homem que, primeiramente, atirou-lhe uma mochila, que o atingiu na cabeça, e, não satisfeito, logo em seguida, arremessou-lhe uma lata de cerveja.
O Bloco fazia justamente uma homenagem ao filme Ainda estou aqui, que aborda os horrores do período de exceção que tanto sofrimento trouxe a tantos brasileiros, entre eles Rubens Paiva, cujo desaparecimento e posterior morte é o tema central da película.
Difícil acreditar que um homem idoso, participando de uma festa popular, tetraplégico, desfilando em uma cadeira de rodas, seja vítima de um ataque tão brutal e covarde. Ah! Mas não morreu, não se feriu, não foi parar em um hospital, não acionaram o SAMU, não foi atingido por uma bala ou faça. Isso não importa, o que importa aqui é o ato e seu contexto.
Isso certamente ocorreu por ódio, um ódio de natureza política, porque o agredido teve a audácia de escrever um livro sobre um período de nossa História que muitos não aceitam como um atentado à Democracia, período em que muitas pessoas sofreram e desapareceram por pensar de forma diferente dos generais de plantão. O mesmo ódio político que fez alguém invadir uma festa e assassinar o aniversariante só porque este comemorava seu aniversário tendo como tema o político que representa sua ideologia, caso análogo a este ocorrido com Rubens Paiva.
Como pacificar o país com episódios como esses, brutais, que nem em nossa imaginação poderiam existir? Até parece seres saídos de um filme da Idade da Pedra, do período Jurássico, verdadeiros T-Rex ressurgindo das telas sombrias para nos aterrorizar.
E justamente em um momento de glória, quando a Cinema Brasileiro sai de seu ostracismo para ser protagonista em Hollywood, com o filme homônimo do livro de Rubens Paiva sendo aclamado mundo afora, ganhando prêmios antes inimagináveis, e até mesmo rompendo a barreira quase intransponível de Hollywood para países fora do eixo da elite cinematográfica mundial.
Rubens Paiva não se abalou, sorrindo, continuou desfilando sua grandeza em sua cadeira de rodas!
Já o T-Rex, esse “fóssil vivo”, ao contrário, deve estar chorando e já articulando uma desculpa para não passar algum tempo enjaulado ou preso em cercas eletrificadas, como o do filme.
Só que de outro filme, não o de Walter Salles, mas o de Steven Spielberg.