(...) E uma semente germinará

Ilustração ao texto

Jeremias olhava a paisagem desolado. O sol brabo castigava sua plantação de milho. Em toda sua vida, nunca vira nada parecido. Espigas murchas denunciavam a fraqueza da terra.

O lavrador fechava os olhos cansados e voltava ao passado. Via espigas douradas e fortes balançando-se ao vento. O milharal todo viçoso e farto. Especialmente no ano em que nascera o terceiro filho. Que colheita! Dera até para vender alguma coisa na feira da cidade.

Mais triste ainda Jeremias via a sua família. Oito filhos e uma mulher acabada. Inácia era o retrato da decadência. Magra, com os ossos furando o vestido de pano barato, olhos fundos e boca murcha como o milho lá fora.

Esta Inácia já fora gente. Filha de comerciante abastado, engraçara-se de Jeremias em uma missa de domingo. Ele, todo apertado em uma indumentária esquisita, lançava olhares furtivos para Inácia, radiante nos seus dezessete anos. Na saída, trocaram palavras desconexas, em um diálogo monossilábico. Seis meses depois, Inácia estava de bucho feito! O pai, homem bom e compreensivo, acatou tudo sem espernear. Afinal, fosse tudo pela vontade de DEUS!

– O homem não é lá essas coisas, mas tem saúde e braços fortes – pensava seu Zelico.

Casaram-se na mesma igreja onde se conheceram. Seu Zelico dera-lhes, como presente de casamento, um pequeno sítio, com terra boa e casa de taipa.

Três anos depois, o sitio prosperava a olhos vistos. Jeremias comprara, com as economias do que vendia, as terras vizinhas, aumentando sua propriedade.

Os filhos nasciam regularmente a cada ano. No começo, não havia aperto, porque a terra era mãe abençoada e generosa.

Com o correr dos anos e dos filhos, as coisas se complicaram. A terra, castigada ano após ano, começava a dar mostras de cansaço. As colheitas eram cada vez mais escassas e minguadas. Com a morte do pai de Inácia – deixara tudo para os outros filhos –, a farinha, o açúcar e a carne seca que vinham da cidade de vez em quando eram agora só lembrança naqueles olhos e costelas marcados pela fome.

FOME! Jeremias não entendia como sua terra lhe virava as costas. Queria ver novamente seu milharal florescer. Mas o sol implacável parecia consumir tudo, como um implacável juiz dando uma sentença de morte a Jeremias e aos seus. Nada de nuvens no céu nu. Uma chuvinha poderia mudar sua vida.

Um dia, voltando da lida, ouviu choro forte na casa. Pressentiu desgraça feia:

– Homem, o menorzinho é com DEUS – disse Inácia, com o rosto ainda mais descomposto.

Jeremias olhou o pequeno corpo inerte sobre um mísero caixote de madeira. Não conseguia sentir nada. Só um vazio a percorrer sua alma seca e árida como a terra. O infeliz não chora mais de fome, pensou, tristemente.

Enterraram o filho perto do milharal, numa raiva surda contra a terra ingrata.

E a história se repetiu por outras sete vezes. A cada novo mês, o choro forte de Inácia, e a cara sem lágrimas de Jeremias. Os filhos morriam como passarinhos, sem dor nem resistência. E o milharal ia se transformando em um cemitério de infelizes.

Jeremias soltou seu grito desesperado, explodindo sua alma em mil pedaços:

–Terra maldita! Tu me desgraçou! Que o inferno queime tuas entranhas!

Pensou em se juntar aos pobrezinhos do milharal. Mas uma força esquisita o segurava àquele chão que agora excomungava.

Quase não comiam. Às vezes, um preá ou um camaleão caçados com a velha espingarda de repetição.

Certo dia, Jeremias saiu sem rumo. Andou, andou, castigando os pés inchados. Não sabia por que, mas sua vontade era maltratar corpo e alma. Sua vida de sofrimento passou toda pela cabeça. Via tudo como as águas limpas dos riachos dos tempos de fartura.

Voltou pelo mesmo caminho, sentindo a alma inquieta, o coração batendo descompassado. Viu um clarão rasgando o céu, seguido de um estrondo. Olhou as nuvens cinzentas que se formavam no horizonte carregado. Sua alma murcha se iluminou. Apressou o passo. Chegou a casa debaixo de um aguaceiro medonho. Empurrou a porta e ouviu um som abafado, como choro de menino novo. Entrou no quarto e viu Inácia com um corpinho que mexia os bracinhos sem parar, ainda manchado de sangue materno.

O choro do menino, ao nascer, confundira-se com o barulho do trovão. Inácia não sabia ao certo qual dos dois a fizeram mais feliz.

No outro dia, Jeremias saiu para ver a terra. Estava úmida e fresca. Tudo cheirava à vida. Foi até o milharal, olhou as oito cruzes e viu a SEIVA escorrendo dos pequenos túmulos molhando sua TERRA querida.

Estava pronto para plantar outra vez.

(...) E uma semente germinará

Prof. Orlando Tadeu Ataide Leite

A crônica de Dom Eliseu

Jece Cardoso

Entrevista com Dr. Diego Rodrigues

Jece Cardoso

Entrevista com o DJ Betuel

Jece Cardoso

Transporte coletivo na Região Metropolitana da grande Belém e o velho problema do ir e vir à capital paraense

Jece Cardoso

Tags