Muito prazer, meu nome é otário
Ele sempre foi um ser humano íntegro e correto. Nunca enganou ninguém; pelo contrário, estava sempre pronto para prestar ajuda a quem necessitasse.
Não era rico, tinha apenas uma pequena venda de objetos usados, coisas como peças de fogão, ferramentas usadas, pedras de amolar facas, panelas de alumínio, enfim, uma variedade de bugigangas que sempre resolvia as demandas dos moradores do lugar.
E o lugar era um desses municípios largados por esse país afora. Muita pobreza, pouco emprego e alguns abençoados pela sorte, gente que tinha comércio grande e muitas terras para o cultivo, principalmente, de milho. Eram pessoas com muitas posses, dinheiro e poder, que dominavam, inclusive, a política local.
E havia uma família que detinha o poder político do município há décadas, mas sem que trouxesse realmente benefícios para o lugar, que patinava nos precárias índices de desenvolvimento social.
Nos bairros mais afastados, na periferia, muita gente sem ter nem mesmo o básico para sobreviver, vivendo das poucas e parcas doações dos vizinhos, que também lutavam para não perecer na fome cruel.
Mas a elite da cidade, esta vivia muito bem, obrigado. Casas luxuosas, que contrastavam com a pobreza reinante, filhos passando férias no exterior e muita fartura na mesa. No mercado municipal, todo o filé era separado para eles, e ai de quem quisesse um quilinho sequer, que ouvia do açougueiro: “Não pode levar, está reservada para o patrão”!
E assim a vida corria na cidade.
Mas a população começou a se rebelar, quando souberam que todo esse luxo, essa vida de benesses, era fruto de uma deslavada roubalheira do dinheiro que vinha para a prefeitura. Um certo repórter, filho de uma família da cidade, estando de férias, começou a pesquisar, em princípio por pura diversão e senso jornalístico, as contas do prefeito; mas, depois, vendo as precárias condições sociais da cidade, levou a coisa a sério e pediu ajuda a certos amigos do jornal em que trabalhava, descobrindo toda a safadeza dos que tinham o poder nas mãos, especialmente a família do gestor do município.
Foi tudo descoberto, e o prefeito afastado. A cidade, em júbilo, festejou o fato histórico, porque esses que dominavam a cidade estavam no poder há décadas.
E aí foram convocadas novas eleições, inclusive para a Câmara Municipal, pois todos os vereadores foram afastados, visto que faziam parte do esquema fraudulento comandado pelo prefeito.
E em uma certa manhã, ao levantar e se preparar para o trabalho, para sua vendinha de bugigangas, seu José da Luz viu sua pequena casa com muita gente na frente, todos falando ao mesmo tempo. A mulher apareceu, espantada com a confusão, querendo saber por que tudo aquilo.
Depois do susto, o vendedor de quinquilharias ficou sabendo, sem acreditar, que o povo todo do lugar queria que ele fosse candidato a prefeito do município.
E pouco tempo depois, seu Jose da Luz entrava, em triunfo, no prédio da prefeitura para tomar posse.
Foi uma festa só, o povo feliz, porque acreditava que, agora, as coisas mudariam para melhor!
E realmente mudaram. O novo prefeito começou a administrar com seriedade, coragem e competência, com “mão de ferro” contra os antigos desmandos e contra a ladroagem que imperava na administração. Pôs as contas em dia e a prefeitura, finalmente, chegou até o povo, com serviços antes nunca vistos.
A administração passou a ser considerada modelo para todo o país, com a prestação de contas sendo feita, mensalmente, em praça pública, tudo com comprovação dos tribunais responsáveis.
E tudo corria como deve ser.
Porém, forças estranhas e invisíveis, não se sabia bem vindas de onde, começaram a mover seus tentáculos ferozes e poderosos advindos de um poder paralelo, sujo e carcomido pela ferrugem da corrupção, minando a administração que tanto fazia pelo bem comum da cidade antes tão maltratada pelos tubarões sedentos de sangue e de poder fácil!
Uma campanha sórdida foi iniciada, com a desculpa de que o prefeito era “muito honesto”, e que isso estava prejudicando o município, porque era preciso trazer mais obras, e que, para isso, havia que se “ceder” um pouco, dar um “agrado”, algo “por fora”, pois sem isso a coisa não andaria.
José da Luz, então, ele que não permitia que sequer um único centavo fosse desviado dos cofres da prefeitura, ele que, em sua primeira reunião com seus auxiliares, bradara, alto e bom som, a frase magistral, forte, tenaz, histórica: “No meu governo, é proibido roubar, não permitirei o desvio de nenhum centavo, porque o dinheiro não é meu nem de vocês, o dinheiro é da cidade. Quem não estiver de acordo, que se retire agora!”
Mas não teve jeito. A perseguição foi tão grande, tão poderosa, que o prefeito acabou ficando ilhado, isolado, inclusive pelos vereadores, e, mesmo ainda com apoio popular, foi obrigado a renunciar.
E aí, caberia como uma “luva” o título da matéria, posto, de propósito, na boca do honesto e probo, mas infeliz e injustiçado prefeito José da Luz:
Muito prazer, meu nome é otário!
